O SÉCULO DE FERRO: UM PERÍODO OBSCURO NA HISTÓRIA DO PAPADO

Um dos períodos mais controversos da história da Igreja Católica foi o chamado “Século de Ferro”, situado entre os anos 891 e 1003. Época de grandes disputas pelo poder eclesiástico por parte das mais importantes famílias da nobreza romana (e posteriormente também da nobreza alemã e francesa) foi um tempo em que o papado, fortalecido politicamente a partir de Carlos Magno, tornou-se refém dos interesses pessoais de grupos que viam na estrutura eclesiástica uma possibilidade de extensão de seu poder de influência sobre outras esferas da sociedade.

No ano de 800, a coroação de Carlos Magno no Natal e seu respectivo reconhecimento por parte do Papa como “Sacro Imperador Romano Germânico” causou dissabores à vida eclesial já naquele tempo, e de certo modo lançou as bases do futuro Cisma do Oriente, que se daria em 1054. A questão central do problema estava no fato de o Papa ter se negado a equiparar os poderes de Carlos Magno aos poderes do imperador bizantino, pois no Oriente os limites entre a fé e a política eram quase inexistentes, ou ao menos imperceptíveis para a maioria das pessoas. 

A Cátedra de Pedro sob ameaça

Toda a prosperidade e o avanço conquistado no campo social e eclesial entraram em declínio a partir do governo de Luís, o Piedoso. Os nobres italianos passaram a se intrometer cada vez nas eleições papais e no governo da Igreja. Boa parte da hierarquia eclesiástica passou a ser composta por pessoas sem vocação, que governavam a Igreja muitas vezes de modo imprudente, o que causava grande dano à salvação das almas. Esse estado de coisas precipitou a “Esposa do Cordeiro” num dos capítulos mais tristes de sua história.

Coroação de Carlos Magno pelo Papa São Leão III

Crimes, roubos e mortes se proliferaram. Apesar do cenário desolador, a Igreja teve um papel fundamental na reconstrução dessa sociedade em frangalhos. No entanto, muito desse esforço acabou sendo obscurecido pelo emprego de uma fonte histórica bastante tendenciosa: as obras de Liutprando de Cremona, um bispo que se opunha à centralização da autoridade papal e priorizava uma visão favorável às ações de reis e imperadores em detrimento das decisões pontifícias. Ao lado de homens ambiciosos e pecadores, Deus suscitou, como sempre ocorre nos períodos de crise, grandes santos que reformaram o sistema educacional, a vida religiosa e a disciplina eclesiástica. Portanto, nem só de crises e disputas políticas viveu a Igreja nesse tempo.

Na vida monástica, vale recordar a revolução silenciosa que ocorreu no seio da Igreja com a fundação da Abadia de Cluny no ano de 911, e que seria a geradora de uma autêntica renovação da vida espiritual, litúrgica e intelectual da Igreja. A partir de Cluny, centenas de mosteiros seriam fundados. No auge da “reforma cluniacense”, o número de mosteiros afiliados chegou a 1450, e o número de monges, a dez mil. De Cluny saíram quase uma dezena de papas, entre os quais Gregório IX, que reorganizou as estruturas jurídicas da Igreja e disciplinou a escolha dos bispos, extirpando influências externas e instrumentalização de cargos eclesiásticos.

Representação da Abadia de Cluny
Abadia de Cluny atualmente

Os papas da crise 

No último quartel do século IX vários papas de origem nobre, cujas eleições sofreram grande influência externa, se alternaram no trono petrino. João VIII, Marinho I, Adriano III e Estêvão V foram os papas de 872 a 891. Em 891, foi a vez de Formoso, porém a nobreza da cidade de Espoleto, na Itália, se opôs à sua eleição e conspirou para depô-lo, tanto que o Papa recorreu a Arnulfo, rei da Alemanha, para garantir sua posse. O rei o atendeu, sitiando prontamente Roma e a tomando das mãos dos revoltosos. Como retribuição, foi coroado imperador em 896. Com a retirada das tropas imperiais, o Papa novamente foi alvo dos jogos políticos dos senhores europeus, que não lhe perdoaram a coroação de Arnulfo. Em 896 Formoso morreu angustiado com os destinos da Igreja, acuada pelos interesses dos grupos de poder.

A nobreza espoletana conseguiu então influenciar a escolha do papa seguinte, sugerindo um dos partidários de sua causa. O escolhido tomou o nome de Estêvão VI.

O Sínodo Cadavérico 

Por ser considerado um papa pró-germânico, Formoso, mesmo depois de morto, ainda incomodava a ponto de Estêvão VI convocar um sínodo no qual seu predecessor deveria ser julgado postumamente. O cadáver ressequido de Formoso foi exumado nove meses após sua morte, e novamente revestido com os ornamentos pontifícios. Num espetáculo sádico, os despojos do Papa foram postos numa cadeira em posição de réu, e ele foi julgado publicamente. A cada crime que lhe imputavam ele era privado de um de seus ornamentos. Formoso foi condenado, e seu pontificado, declarado ilegal; e todas as ordenações que ele conferiu foram invalidadas. Seu cadáver foi despido dos paramentos sagrados; seus dedos indicador e médio da mão direita, usados para impartir a bênção pontifícia, foram cortados, e seu cadáver posto num túmulo de peregrinos. Na sequência, a turba, insuflada pelo novo papa, destilou seu ódio sobre o papa falecido profanando seu novo túmulo e atirando seus despojos no Tibre.

Estêvão VII, apesar de aparentemente ter agradado aos romanos e demais nobres italianos, por suas pretensões centralizadoras e seu desejo constante de poder, acabou assistindo a uma revolta do povo contra si que o levou ao cárcere e à morte por estrangulamento. Os pontífices seguintes, Teodoro II e João IX, esforçaram-se por apagar a terrível memória dos acontecimentos anteriores ligados ao Papa Formoso: reafirmaram a validade das ordenações conferidas pelo pontífice e queimaram as atas do chamado “Sínodo Cadavérico”. A fim de coibir abusos futuros, em 898 um novo sínodo romano estabeleceu que as eleições pontifícias não mais contariam com a aclamação popular, mas seriam realizadas exclusivamente pelos bispos sufragâneos de Roma e pelo próprio clero romano. O candidato eleito deveria ser confirmado pelo senado e depois pelo povo. Após essas formalidades que garantiriam uma eleição válida, o Papa deveria ser entronizado na presença dos principais legados reais e imperiais.

Ingerência política, cobiça e ilegalidade

A nobreza da Toscana e de Espoleto passou a conspirar a fim de conseguir usurpar o papado. Em 904 conseguiram influenciar o processo de eleição do pontífice culminando na escolha de Sérgio III, que tinha parentesco com os nobres de ambas as regiões. Nesse período, os nobres da família Teofilacto, especialmente Teodora Senior e suas filhas Marócia (ou Marózia) exerceram grande influência sobre o papado. Mulheres ambiciosas, ricas e muito imodestas, passaram a forçar algumas decisões de cunho político para favorecer os interesses de sua família.

Papa Sérgio III

Sérgio III era avesso à memória do Papa Formoso. Apesar da reabilitação de Formoso pelos dois sucessores imediatos, Sérgio III tornou a declarar inválidas as ordenações conferidas por ele. Nesse ínterim, Teodora, que era membro do senado romano (senatrix), assim que Sérgio III morreu, influenciou decisivamente na escolha de João X ao papado (914 a 928). O pontífice em questão, embora eleito sob influência de Teodora, se esforçou para conter a ingerência da nobreza nos assuntos eclesiásticos; acabou preso por ordem de Marócia, sendo sufocado na prisão pouco tempo depois.  Em 931 subiria à cátedra petrina João XI, filho de Marócia. Nessas disputas de poder, Alberico II, filho de Marócia e irmão do Papa João XI, insuflou a nobreza e o senado contra os desmandos de sua mãe, que foi encarcerada, e o papa, que era seu meio-irmão (por ascendência materna), posto sob intensa vigilância. A partir daí, Alberico e seus descendentes passariam a reger os Estados Pontifícios de 932 a 954. Ao Papa cabia apenas funções espirituais, enquanto as questões temporais seriam absorvidas por Alberico II, o qual, apesar de agir de modo muito contraditório e interferir no poder eclesiástico constantemente, era um homem piedoso e tinha a visão de que apenas a Igreja poderia salvar a civilização europeia da decadência. Ele influenciou diretamente na eleição de cinco papas, todos muito honestos e dedicados ao ministério: Leão VII, que governou de 936 a 939; Estêvão VIII, que governou de 939 a 942; Marino II, que assumiu em 942 e governou até 946; e por fim Agapito II, que governou de 946 a 955.

Em 954, aproximando-se de seu fim natural, Alberico obteve do senado e da nobreza romana a promessa de que, após o pontificado de Agapito II, se esforçariam por escolher para a Sé Romana seu filho Otaviano, o que de fato aconteceu, tendo o jovem tomado o nome de João XII. Ao que tudo indica, foi a partir de seu pontificado que o costume muito difuso na vida monástica de mudar o nome ao professar os votos religiosos foi também adotado pelos pontífices romanos no dia de sua eleição. 

João XII foi eleito aos 17 anos. Era descendente direto de duas nobres famílias romanas, os Teofilactus e os Tusculum. Encarou o pontificado como um principado mundano, promoveu reformas, restaurou o Sacro Império Romano-Germânico, firmando uma aproximação vantajosa para a Igreja e para os Estados Pontifícios ao aceitar coroar Otão I, rei dos germânicos, como imperador. Após sua coroação, descobriu que o Papa conspirava junto da nobreza romana contra ele. Então retornou a Roma, sitiou a cidade e, num sínodo por ele reunido, agrupou 16 cardeais, todo o episcopado italiano e boa parte do episcopado germânico, além de abades e superiores religiosos, para discutir os escândalos do pontificado corrente.

Jovem e inapto para o cargo, o ambicioso João XII notabilizou-se por uma vida dissipada, dada ao luxo, à jogatina e às relações ilícitas que escandalizavam o povo católico. Muitas das acusações que pesavam sobre o Papa eram exageros do imperador germânico, mas muitas delas eram procedentes. Otão I tencionava depô-lo. No sínodo por ele convocado, os bispos decidiram pela deposição e escolheram um leigo para sucedê-lo, Leão VIII, o qual teve de receber as ordens sacras às pressas. Em Tívoli, perto de Roma, para onde fugiu temendo por sua vida, o Papa João XII ameaçou de excomunhão Otão I e todos os participantes do sínodo; mas a deposição ocorreu mesmo assim. O Papa deposto fugiu de Roma, mas depois retornou, depôs e prendeu Leão VIII, mutilou e assassinou cardeais e bispos, e mandou decapitar mais de sessenta pessoas do clero, do senado e da nobreza romana. Em 964, no entanto, enquanto mantinha relações ilícitas com uma dama romana, foi surpreendido pelo marido traído, que o matou esfacelando seu crânio a marteladas. Na sequência elegeram Bento V, homem sábio, digno e preocupado com o bem da Igreja, porém a eleição descontentou o imperador Otão I, que retornou a Roma e restaurou Leão VIII no trono papal, prendendo Bento V. A Igreja tinha então dois papas e cada grupo defendia a validade da eleição de um deles. No entanto, em 968, Bento V morreu na prisão, restando um único papa reinante. Em 965, Leão VIII morreu e foi sucedido por João XIII, filho de Teodora, primo do Papa João XII. Nessa época, Bento V ainda vivia, havendo, portanto, dois papas. João XIII, apesar de vir de uma família extremamente ambiciosa, mostrou-se digno do cargo que ocupava, tentando governar a Igreja com uma visão sagrada e sobrenatural das coisas, o que desagradou a nobreza romana, que o encarcerou. Com a ajuda de parentes, conseguiu fugir e retomar sua cátedra com o apoio do imperador germânico.

Ao falecer em 973, a ausência do poder de Otão I como bastião na defesa da Sé Romana trouxe novos problemas. As famílias Tusculum e Teofilactus perderam espaço para a família dos Crescentius, que ascenderam ao poder temporal durante o pontificado de Bento VI, entre os anos de 973 e 974. O Papa, por ser considerado um impedimento às novas pretensões de poder, acabou preso e morreu estrangulado, sendo sucedido por Bonifácio VII, que acabaria deposto do trono petrino por legados do imperador Otão III. O Duque Crescêncio, governante de Roma na época, lutaria pelo poder temporal, mas depois, ao fim da vida, se converteu e virou monge. Bonifácio VII, após sua deposição, fugiu para Constantinopla.

Em 974, o imperador Otão II garantiu uma eleição pacífica. Bento VII subiu ao trono de São Pedro e governou com a ajuda do imperador de forma firme, mas tranquila até sua morte em 983, ano em que a Igreja passou a ser conduzida por João XIV, o qual, assim que foi eleito, teve de enfrentar um problema terrível: Bonifácio VII, que havia sido deposto, mas que tinha muitos apoiadores em Roma, retornou, mobilizou exércitos e, por conveniência política, retomou a cátedra de Pedro para si, prendendo João XIV, que morreu por inanição em 984. No ano seguinte, seria a vez de Bonifácio VII encontrar de modo imprevisto seu Eterno Juiz: morreu de repente, e a multidão, furiosa por sua crueldade com João XIV, varou seu corpo com lanças e o arrastou pelas ruas de Roma. Foi então eleito o Papa João XV, que reinaria de 985 a 996 assumindo o pontificado com o desafio de lidar com o tirânico Duque Crescêncio, o Moço, que fora nomeado como Senator, Dux et Consul Romanorum. Para secundá-lo na retomada do espaço próprio da Igreja, o Papa recorreu ao jovem imperador Otão III, recém-coroado aos 16 anos de idade. O imperador teve certa dificuldade para manejar suas tropas; quando se acercava de Roma, veio-lhe a notícia da morte do Papa. Entrando na Cidade Eterna, o jovem imperador, como meio de preservar a Igreja da cobiça e das intrigas das grandes famílias romanas, propôs aos votantes o nome de seu capelão, o jovem padre Bruno de Caríntia, de nobre família romano-germânica e primo do imperador. O nome proposto foi aceito, e em 996 Bruno de Caríntia tomou o nome de Gregório V. Junto do imperador traçou um plano de moralização de Roma e de recristianização de muitos costumes. A nobreza dissoluta de Roma não gostou da dureza e disciplina impostas pelo jovem papa alemão, que na época de sua coroação contava com 25 anos. Era culto, dedicado a seu ministério e extremamente preocupado com a vida sacramental, com a vida de oração e com a cultura dos católicos. Em seu pontificado começaram a se delinear os aspectos gerais da estrutura de um poder pontifício mais centralizado e organizado.

Papa Gregório V

Gregório V foi o primeiro alemão a chegar ao papado. Desde o início buscou uma postura mais conciliadora, vindo a anistiar seus opositores que estavam presos ou sob vigilância. Crescêncio retribuiu a anistia com uma traição que precipitou uma perseguição virulenta contra o Papa. Temendo por sua vida, Gregório fugiu depois soube que Crescêncio havia promovido uma eleição ilegal na qual o antipapa João XVI ascendeu ao sólio pontifício. Otão III, no entanto, restituiu a cátedra a Gregório V. Era o ano de 998. Aos 27 anos de idade e depois de um curto, mas intenso pontificado, Gregório V entregou sua alma a Deus e foi sucedido por Silvestre II, que governaria de 999 até 1003. A ele caberia a celebração do jubileu do primeiro milênio cristão e o fim do “Século de Ferro”. Ele foi o primeiro pontífice francês, amante da pregação e das ciências; entendia-se bem com o sacro imperador, juntos pretendiam restaurar a cristandade. Ambos empenharam grandes esforços pela evangelização dos povos eslavos em geral, com acento na Hungria e na Polônia. 

Cristo, que prometera rogar por Pedro (cf. Lc 22,32), segue rogando por seus sucessores, e Sua mão segue mantendo a vitalidade da Igreja. Acabado o século X, no século seguinte despontava uma grande restauração. A videira de Cristo, depois de podada, veria suas ramas vicejarem da seiva guardada nos mosteiros e nos grandes centros de peregrinação, que desempenhariam um papel fundamental na superação da própria corrupção interna da hierarquia na medida em que davam testemunho da fé simples do povo nesses locais de culto. As tormentas sacudiram a barca de Pedro, mas o Senhor estava ali e as portas do Inferno não puderam prevalecer. Nunca poderão!


Referências:

Mcbbrien, Richard P. Os papas: os pontífices de São Pedro a João Paulo II. Loyola: São Paulo, 2010.

Rops, Daniel. A Igreja dos tempos bárbaros. Vol. II. Quadrante: São Paulo, 1991.

Rops, Daniel. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Vol. III. Quadrante: São Paulo, 1991.

Thomas, P.C. Breve história dos Papas. Ed. Santuário: Aparecida, 2006.

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