Os três pilares da Igreja Católica: Tradição, Magistério e Sagrada Escritura

Ao longo da história do povo hebreu, Deus se revelou de muitas formas. Seja falando diretamente a Abraão e mostrando-lhe a areia e as estrelas que se comparariam à sua descendência (Gn 26), seja na sarça ardente a Moisés (Ex 3-4), nas visões de profetas como Isaías e Jeremias, entre tantos outros fatos que aqui poderiam ser mencionados.

O fato é que, sempre, Deus quis manifestar-se e estar próximo de seu povo escolhido. E na plenitude dos tempos não foi diferente – Deus quis estar tão próximo a ponto de mandar Seu Filho único encarnado para a salvação de toda a humanidade (Jo 3, 16). Essas manifestações divinas também podem ser chamadas de Revelação – a forma como Deus se dá a conhecer a suas criaturas. 

Grande parte dessa revelação encontra-se nos livros que compõem a Bíblia, alguns destes já citados anteriormente. Porém, ao nos aprofundarmos na fé que professamos, damo-nos conta de que nem tudo está registrado na Sagrada Escritura. Há crenças e dogmas que nos chegam por outro meio: pela Tradição apostólica ou pelo Magistério da Igreja Católica.

Isso porque Deus escolheu manifestar-se não apenas pelo texto bíblico, mas por três vias de Revelação da Verdade divina – uma tríplice aliança que revela ao homem um pouco dos mistérios de Deus. Assim, para a Igreja Católica, cada via dessa trindade tem o mesmo peso e o mesmo grau de verdade. Deus se revela por meio dos textos sagrados – aqueles que foram escritos, selecionados e reconhecidos pelo Magistério da Igreja; também se revela pelo próprio Magistério, cuja missão é guardar e interpretar essas verdades da fé; e também, ainda, pela Tradição apostólica, aquilo que os discípulos viram e ouviram do próprio Senhor e que permanece sendo contado e ensinado (cf. CIC 95). 

A partir de agora, vamos nos deter em cada um desses três pilares da fé católica, buscando compreender a revelação divina manifestada por meio de cada um deles.

A Bíblia e a Revelação divina: o reconhecimento da incompletude

A Bíblia, como já dissemos, é um dos pilares da fé, já que é por seu intermédio que se transmite a revelação divina, inspirada por Deus a alguns homens. No entanto, há que se chamar a atenção ao fato de que somente a Sagrada Escritura não contém a total revelação do mistério divino. Deus quis que, junto a esse importante canal de Sua manifestação ao mundo, Ele também se revelasse a nós por meio dos outros dois pilares da fé.

Assim, há várias razões pelas quais a Sagrada Escritura e sua interpretação livre não são suficientes para mostrar-nos a totalidade da Revelação. A primeira e mais relevante delas é, sem dúvida, o fato de que uma interpretação sem auxílio da Igreja pode levar a muitas conclusões errôneas, seitas e equívocos doutrinários, como já ocorreu na história da humanidade.

É muito frequente, por exemplo, que protestantes de várias denominações questionem os princípios católicos e, para argumentar, façam objeções como: “Onde se fala sobre o Purgatório na Bíblia? Onde diz, na Bíblia, que São Pedro foi o Primeiro Papa? Onde está escrito que Maria foi levada ao céu em corpo e alma?” E assim muitas questões deste mesmo gênero. Para eles, a Revelação Divina e a Bíblia são a mesma coisa. Isto é, somente na Escritura já estaria toda a Revelação de Deus. 

Contudo, pensando desde uma perspectiva histórica, podemos nos questionar: esta posição está correta? A Bíblia, tal como a conhecemos hoje, sempre existiu? Ou foi a Igreja e a Tradição as responsáveis por escrevê-la, selecioná-la e guardá-la ao longo de todos estes anos? O que existiu primeiro: a Bíblia ou a Igreja? E, diante de todas essas questões, a resposta é muito clara: não haveria Sagrada Escritura se, antes, Deus não tivesse escolhido homens para guardá-la e transmiti-la.

Sobre a Revelação Divina

A Revelação é a manifestação de Deus e de sua vontade acerca de nossa salvação, e vem da palavra “revelar”, que quer dizer “tirar o véu”, ou “descobrir”.

Ao longo da história da humanidade, Deus se revelou de suas maneiras:

  1. A Revelação natural, ou revelação mediante tudo o que foi criado: 

Diz o apóstolo Paulo: “Tudo aquilo que podemos conhecer de Deus, Ele mesmo o manifestou. Pois, se não podemos vê-Lo, o contemplamos, pelo menos, através de suas obras, posto que Ele fez o mundo, e por suas obras entendemos que Ele é eterno e poderoso, e que é Deus (Rm 1, 19-20).

  1. A Revelação sobrenatural ou divina: 

Desde o princípio, Deus começou a revelar-se através de um contato mais direto com os homens, desde Adão e Eva, com o povo hebreu mediante os antigos profetas e de uma maneira perfeita e definitiva na pessoa de Jesus Cristo na plenitude dos tempos, o Filho de Deus encarnado: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas.”  (Hb 1, 1-2)

Nosso Senhor revelou-nos Deus Pai mediante suas palavras e obras, seus sinais e milagres; sobretudo mediante sua morte, sepultura e sua gloriosa ressurreição e com o envio do Espírito Santo sobre sua Igreja. Assim, tudo o que Jesus fez e ensinou se chama “Evangelho”, isto é, “Boa nova da Salvação”.

Como a Revelação divina foi transmitida?

Para levar o Evangelho por todo o mundo, Jesus encarregou os apóstolos e seus sucessores como pastores da Igreja que Ele fundou pessoalmente: “Jesus, aproximando-se deles, falou: “Todo o poder me foi dado no céu e sobre a terra. Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 18-20).

Como percebemos nesta passagem da Sagrada Escritura, Jesus ordenou a pregação de sua Boa notícia da Salvação. E, de fato, os Apóstolos pregaram a Boa Nova de Cristo em todos os lugares do mundo ao longo de dois mil anos. Anos depois da morte e ressurreição do Senhor, alguns destes discípulos registraram por escrito essa pregação. Isto é, no começo a Igreja preocupou-se pelo kérygma, pelo anúncio do Evangelho. 

Sendo assim, o Evangelho que Jesus entregou a seus Apóstolos não estava escrito. Jesus nunca escreveu uma carta a eles, da mesma forma que já havia acontecido com grandes filósofos como Sócrates. O ensino de Nosso Senhor foi somente oral e exemplar. Assim fizeram também cada um dos discípulos, até que o primeiro livro fosse escrito, já anos depois de a Igreja Primitiva estar consolidada e com número expressivo e cada vez maior de fiéis.

A Tradição Apostólica: guardiã da fé

Estes ensinamentos escutados da boca de Jesus, vividos, meditados e transmitidos oralmente pelos apóstolos chamam-se “A Tradição Apostólica”.

Quando falamos de “Tradição” (com letra maiúscula), do latim Traditio, isto é, entrega, referimo-nos sempre à Tradição Apostólica, e não às simples tradições humanas passadas de geração em geração. Não devemos confundir a Tradição com a “tradição”, que em geral se refere a costumes, ideias, modos de viver de um povo.

A Tradição Apostólica, por outro lado, se refere à transmissão do Evangelho de Nosso Senhor. Jesus, além de ensinar a seus apóstolos com discursos e exemplos, ensinou-lhes uma maneira de orar, de atuar e de conviver. Esta era a Tradição que os apóstolos guardavam na Igreja primitiva. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Coríntios, refere-se a isso dizendo: “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti” (1 Cor 11, 23).

O Magistério da Igreja

O Magistério, do latim Magister, isto é, mestre, é o encarregado por interpretar a Sagrada Escritura e ensinar ao povo de Deus sua correta leitura.

Este Magistério, por sua vez, não está acima da Revelação Divina, mas a seu serviço, para ensinar puramente aquilo que foi transmitido. Por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, o Magistério da Igreja escuta devotamente o ensinamento, guarda-o zelosamente e o explica fielmente.

Os fiéis recebem com docilidade os ensinamentos e diretrizes que seus pastores lhes dão de diferentes formas, recordando a Palavra de Cristo a seus apóstolos: “Quem vos ouve a mim ouve; e quem vos rejeita a mim rejeita; e quem me rejeita rejeita aquele que me enviou” (Lc 10, 16).

Assim, o Magistério da Igreja é um guia seguro na leitura e interpretação da Sagrada Escritura, já que “Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal.” (2 Ped 1, 20). E o que poderia ser melhor do que todo este magistério custodiado pelos próprios pastores e sucessores de Cristo? “Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mt 18,20)

O Magistério da Igreja orienta também o crescimento na compreensão da fé. Graças à assistência do Espírito Santo, a compreensão da fé pode crescer na vida da Igreja quando os fiéis meditam a fé cristã e compreendem internamente seus mistérios. Isto é, o fiel vive a palavra de Deus nas circunstâncias concretas da história e torna cada vez mais explícito o que estava implícito na Palavra de Deus.

Nesse sentido, a Tradição divino-apostólica vai crescendo, como sucede com qualquer organismo vivo, pois “A Santa Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo o plano prudente de Deus, estão unidos e ligados, de modo que nenhum pode subsistir sem os outros; os três, cada um segundo seu caráter, e sob a ação do único Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas” (CIC 95)

Assim também lemos na Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a revelação divina, quando trata sobre a tríplice base da Sagrada Escritura, Tradição e Magistério: 

Porém, o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado.” (cf. Dei Verbum, Cp.2, Par. 10).

Os três pilares

Estes três pilares da Igreja Católica estão entrelaçados para sustentar a fé e a doutrina e garantir que, mesmo com o passar dos séculos, esta se mantenha incorruptível. De modo que nenhum deles três existe sem os outros. É assim que juntos, sob a mesma ação do Espírito Santo, contribuem eficazmente e harmonicamente, cada um a seu modo, à salvação dos homens.

Esta união de forças ocorre desde que Nosso Senhor escolheu seus apóstolos e a Pedro como pastor da Igreja: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 19). Assim também os discípulos o fizeram na Igreja primitiva: “O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da paz estará convosco” (Fl 4, 9). E, com o tempo, o mantiveram para garantir que não houvesse erros na leitura e interpretação da Boa Nova: “O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a ou­tros.” (2 Tim 2, 2).

A quem foi confiado o depósito da fé?

Em resumo, podemos dizer que Jesus mandou “pregar”, não “escrever” seu Evangelho, embora a escrita, com o passar do tempo, tenha se tornado muito valiosa e ampliado muito o acesso dos fiéis às revelações divinas. No entanto, apenas a Escritura não se basta, se não estiver custodiada pela Tradição dos Apóstolos e por pastores sábios que possam ensinar as verdades da fé.

A estes, na figura da Igreja como um todo, foi confiado o depósito da fé – a missão de guardá-la até o fim do mundo, com a volta de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por fim, São João Paulo II esclarece muito bem essa questão ainda em sua Constituição Dogmática Dei Verbum, na qual ensina:

“A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fração do pão e na oração (cfr. Act. 2,42 gr.), de tal modo que, na conservação, actuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis […]

É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem os outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a acção do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”. (DV, Cap. 2 Par. 10.)

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